Contos do Zé

O Zé do conto, não chama Zé.
Zé é só porque muita gente chama Zé.
E quando você chama Zé, sempre tem alguém pra responder.
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Rede

Todo dia alguém me pergunta qual é o meu Facebook porque
quer me adicionar pra ser amigo.
Mas ai o infeliz não fica mais de dez minutos conversando comigo.
Se não consegue ficar dez minutos conversando comigo porque
vai querer ser meu amigo no Facebook?
Mas mesmo assim eu digo.
- Me adiciona lá vai ser super legal. Zé. Procura por Zé.
- Mas só Zé?
- Sim, sou o único só Zé do Facebook.
Pego minha paciência e saio fora.
Claro que se for uma fêmea com possibilidades de sexo
casual eu digo o nome certo. Mas até agora isso não aconteceu.
Mas eu não perco as esperanças.
- Você viu meu post?
- Não, você pra mim parece um poste.
- Não entendi.
- Por isso que não vi seu post, seu poste.
- Do que você está falando, Zé?
- Da lua crescente da selva amazônica da era creolítica.
- Cara, você é bem estranho.
- Cara, você é bem comum.
- Obrigado.
haahhah sim isso é verídico.
Quando bebo conhaque no inverno na padaria ali de baixo
sempre vejo outros bêbados, que estão em processo de
alcoolização, assim como eu, "navegando" em seus telefones
celulares acessando com certeza redes sociais. Então, eu fico
encarando-os tentando um contato visual para quem sabe puxar
um papo. Na verdade eu não quero conversar porra nenhuma. Só
quero me divertir com esse experimento nada científico mas bem
divertido pra mim. Quando consigo contato visual com quem quer seja,
maluco desvia o olhar. Volta a olhar para o celular e eu ali. Poucos são
os que aceitam conversar.
Uma vez um cara, Lourenço, caiu nessa minha pegadinha. Mas ai lascou pra mim.
Ele me olhou, eu continue a olhar e ele me perguntou o que eu queria.
Nunca tinha chegado naquele nível. Mas eu não podia deixar a situação
morrer. Eu falei queria conversar com alguém. E ele veio sentar-se perto
de mim. Agora eu estava em um situação escrota pra caralho. Eu tinha que conversar
com um estranho no qual eu estava aplicando uma "pegadinha" da qual eu mesmo
cai. Ah, e eu não queria conversar.
Porra, mas foi muito interessante conhecer o Lourenço. Chegado a pouco a São Paulo,
era do interior. Não lembro de onde. O cara era ator mas estava trabalhando
em uma imobiliária e fazia bicos de garçon a noite. O que menos fazia era atuar.
Mas se alguém perguntava pra ele o que ele fazia ele dizia ser ator. Ele era um ator de
ser ator na vida real. Cara gente boa. A conversa se estendeu até pela manhã.
Artistas são gente interessantes. Tanto pro bem quanto para o horrível. Tem cada
um que dá vontade de bater. Tem artista que só é artista porque ele acha que
é artista. hahahah
Eu e o Lourenço conversamos bastante. Já disse isso né. Porra.
Enfim, conversamos bastante. E é óbvio que antes de sair eu adicionei ele
no Facebook e ele a mim.
Porque ele aceitou vir conversar comigo sempre me interessou saber. Mas eu
não perguntei para não ser desmascarado. Imagina, o cara iria descobrir que
caiu na minha pegadinha. Eu era pra ter dito: Pegadinha do Malandro. Glu glu. Nhe nhe.
Mas não sou artista para tanto.
Nunca mais o encontrei. Nem no Facebook.
Acho que preciso tomar banho. Faz uns dois dias que não tomo banho.
Vou fazer um café antes de tomar banho. Eu gosto de tomar banho com
a barriga forrada. Não cheia. Porque cheia eu posso passar mal, minha mãe já dizia.
Barriga forrada é só pra manter meu interior quente.
Vou postar no meu Facebook que vou tomar banho. Mas antes…. caralho…acabou
o café. Vou buscar café antes de tomar banho.
Artistas sempre me deixam intrigados. Como fazem para parecer ser alguém
que não são?
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Voltei, esqueci meu celular.
Agora sim… posso ir buscar café.
Vai que surge alguma notificação.

26/12/2016